FLÁVIO DINO: "VAMOS SEGUIR FIRMES, COM OS PÉS NO CHÃO"


O pré-candidato ao governo do Maranhão pelas oposições, Flávio Dino, usou sua página no Facebook para comentar a desistência de Luís Fernando como pré-candidato do grupo Sarney na eleição de outubro. Procurado por jornalistas, amigos, apoiadores e admiradores, ele resolveu se manifestar.

"SEGUIREMOS NA NOSSA LUTA, COM FORÇA E FÉ" é o título da postagem.

 "É claro que as decisões são importantes, na medida em que revelam o enorme enfraquecimento do grupo que comanda o Maranhão há 50 anos", analisou. 

"Porém, a nossa luta segue nos mesmos termos: a favor de uma política moderna e transformadora, e contra os problemas do Maranhão", afirmou o pré-candidato.

E confirmou: "Vamos seguir na nossa postura firme, corajosa e com os pés no chão".

Segundo Flávio Dino, "o movimento DIÁLOGOS PELO MARANHÃO é o caminho para o fortalecimento da grande mobilização em busca de um destino melhor para o nosso Estado".

"Aproxima-se o dia em que iremos juntos virar a página do passado, para que o Maranhão possa se desenvolver, com paz e justiça".

UMA TRISTE SINFONIA DA OPRESSÃO



A semana está sendo muito dolorosa para a presidente Dilma Rousseff. Lembra-se os 50 anos  do golpe de Estado contra o presidente João Goulart que levou à ditadura dos militares por quase três décadas. A presidente, com todas as manifestações e lembranças da negra passagem de nossa história, vê seus fantasmas atormentarem seu espírito e seu corpo. Será uma luta sem fim, até o fim, infelizmente para esta grande brasileira. 

Dilma chora no Rio de Janeiro ao lembrar a volta dos exilados ao país

Presa e torturada, caluniada, indeléveis chagas na alma, ela sobreviveu e ressurgiu. A cela escura e fria, o soluço silencioso, a degradação moral a que foi injustamente condenada, a carne trêmula e os nervos esquecidos, o espírito encolhido e triste flutuando na melancólica sinfonia da solidão. Porque nela a consciência e o sonho de igualdade tornaram-se rochas da ação real. Por isso, foi levada ao grande poço.

Desde que o mundo é mundo, o homem sempre se insurgiu contra a opresão, contra as injustiças, contra as tiranias. E esta história está recheada de valentia e fidelidade de mulheres de aço.

Na história do Brasil há casos emblemáticos, como os das mineiras do período colonial que apoiavam seus maridos conspiradores na Conjuração Mineira contra o domínio português. As mulheres dos anarquistas e líderes sindicais, dos comunistas, da já cosmopolita São Paulo dos primórdios do século 20.

No entre-guerras - e talvez de toda a historiografia política brasileira - um dos mais emblemáticos foi o de Olga Benário, a comunista judia alemã, companheira do líder comunista Luís Carlos Prestes. Presa pela ditadura de Getúlio Vargas, deportada grávida para a Alemanha, encarcerada em uma prisão da Gestapo para mulheres, separada da filha após o fim do período de amamentação, triturada, assassinada numa câmara de gás em campo de extermínio em 23 de abril de 1942 com mais 199 prisioneiras.

A BORBOLETA

Dilma Rousseff sobreviveu, restaurou em parte sua paz, ascendeu ao cargo maior da República pelo voto popular e está contribuindo para construir uma nova página de seu país, que busca a redenção social e seu lugar na geopolítica mundial.

Ela e dezenas de outras estiveram na retaguarda, na ação direta, na luta contra o regime militar que perseguiu, torturou e assassinou brasileiros que ousaram enfrentá-lo.

Porém, é preciso registrar aqui, por fim, a história de uma dessas mulheres de ação cujo mito povoa as cabeças de quem diretamente participou das ações do período mais duro da repressão militar, de lado a lado, ou dos que ouviram histórias e estórias sobre ela. Dinalva Oliveira Teixeira, Dina, baiana de Castro Alves, nascida em 16 de maio de 1945.  

Militante do PCdoB e guerrilheira no Araguaia, Dina, segundo registra o jornalista Leonencio Nossa em "Mata! O Major Curió e as Guerrilhas no Araguaia" (Companhia das Letras) foi presa no dia 24 de junho de 1974.

Sobrevivente em pelo menos duas emboscadas, Dina tornou-se um mito como Osvaldão, comandante de um dos destacamentos e estrategista da guerrilha, negro, ex-pugilista, formado engenheiro na Checoslováquia, gigante com quase dois metros de altura, treinado na China, diziam que se transformava em pedra e árvore na floresta, um dos primeiros a chegar ao Araguaia.

Osvaldão: pesadelo para os militares, 'virava' pedra e árvore na selva

Geóloga, "vaidosa e extrovertida" - segundo registra o jornalista no livro - virou 'prêmio' para os militares. Foi a única mulher da guerrilha a ocupar o sub-comando de um destacamento. Atirava bem e tinha bom preparo físico. Era admirada pelos moradores da região. O comandante da guerrilha, Maurício Grabois, morto na selva em condições precárias de saúde, sabia de sua tenacidade.

Sobreviveu ao ataque ao comando militar da guerrilha no Natal de 1973, no qual Grabois, o comandante-geral, foi abatido. Desapareceu na selva até junho de 1974, quando foi capturada. Estava doente e fraca. Levada para a base de Xambioá, ficou presa e foi torturada por duas semanas. Curió chegou a afirmar no livro que a abatera em combate. Rebatido pelo jornalista, vacilou. Dina teria sido levada de helicóptero a uma mata próxima e executada a tiros pelo sargento Joaquim Arthur Lopes de Souza, o Ivan, um dos militares infiltrados como civis na área da guerrilha, em julho de 1974. Seu corpo nunca foi encontrado.
Dina, a Borboleta: executada, seu corpo nunca foi encontrado 

O mito foi um mito até o final. O diálogo com seu executor (verdadeiro ou não) é passagem a ser estudada. Teria perguntado ao algoz se chegara sua vez. Ele respondeu que sim. Então, teria emitido sua última ordem: "Quero morrer de frente!".

A Borboleta voou. 

DUTRA ABRE O VERBO E DETONA SARNEY E ROSEANA


Usando a linguagem do caboclo do interior do Maranhão, com sua retórica ácida, irônica e debochada, o deputado federal Domingos Dutra (Solidariedade) atacou duramente a oligarquia Sarney durante evento de inaguração da sede do PCdoB em Imperatriz, no último 28 de março.

O parlamentar arrancou gargalhadas da platéia e dos políticos que estavam no palanque. Foi aplaudido e conclamou os maranhenses a se unirem em torno da mudança.

Alguns trechos do discurso de Dutra:
"Enquanto dona Roseana compra 2 mil quilos de camarão, 800 quilos de filé de pescada, 300 quilos de linguiça grossa, 950 quilos de sorvete, os policiais militares estão passando fome no Maranhão".

"Queria cumprimentar aqui os companheiros petistas. Os petistas cheirosos, porque tem petista catingoso no curral de Sarney".

"Este ano é ano mais importante de nossas vidas".

"Eu tenho 58 anos, o mesmo tempo que o Futi [Sarney] tem de mandato. Ele já foi tudo na política brasileira, só não disputou o cargo de papa porque o Vaticano não é no Brasil".

"Nesses 58 anos o mundo mudou: o Brasil ganhou cinco copas, o homem foi na lua, Saddam Hussein tá morto, Mubarack está preso, o papa renunciou, mas o Futi não quer largar o osso".

"Vamos fazer um plebiscito no dia 5 de outubro: somos nós contra o Futi do outro lado".

"Vamos fazer um mutirão, juntar o Sarney e a Roseana e mandar pro Afeganistão".

"Sou o mago véi, sou couro e osso, mas muita carne na língua".

IMPERATRIZ - PRESIDENTE DO PCdoB DESTACA UNIÃO DAS OPOSIÇÕES NO MARANHÃO


Para o presidente municipal do PCdoB de Imperatriz, Clayton Noleto, o desejo de mudança manifestado nas ruas e o perfil de seriedade e responsabilidade do ex-juiz federal, ex-deputado federal e ex-presidente da Embratur, professor Flávio Dino, pré-candidato ao Governo do Estado, são fatores que levaram as oposições do Maranhão a se unirem em torno de um programa comum de alternativa de poder para as eleições deste ano.

"Um Estado com tantas potencialidades não pode deixar seu povo passar por tantas dificuldades. Temos os piores indicadores sociais do país e o povo não aguenta mais esse estado de coisas, esses desmandos, essa continuidade de poder que se prolonga por quase cinco décadas nas mãos de um único grupo comandado por uma família", afirma.

Clayton Noleto é uma das jovens lideranças do sul do Maranhão e hoje um dos mais destacados dirigentes do PCdoB no Maranhão.

Segundo ele, o respeito que Flávio Dino tem tanto da população quanto da classe política se deve à sua atuação "correta e justa como juiz federal, como deputado federal e como presidente da Embratur".

"Nosso pré-candidato demonstrou sempre sua honestidade, sua honradez, sua competência nas três esferas do poder pelas quais passou. Sua biografia é limpa e sua luta em defesa das causas sociais é reconhecida até pelos adversários", ressalta.

Segundo ele, "o Maranhão tem uma grande oportunidade agora para passar por uma profunda transformação, que traga justiça social e melhor qualidade de vida para seu povo".

"Nós temos o potencial, o que fez com que o Maranhão nunca avançasse foi a política e é essa política que queremos mudar. E essa transformação será possível com a vontade que a população vem demonstrando, essa vontade de mudança", finaliza. (Carlos Gaby)  

Nota Pública da Comissão Nacional da Verdade


Nota Pública da Comissão Nacional da Verdade

50 anos do golpe de estado de 1964

Há cinquenta anos um golpe de estado militar destituiu o governo constitucional do presidente João Goulart. Instaurou por longo tempo no país um regime autoritário que desrespeitava os direitos humanos; no qual os direitos sociais de muitos eram ignorados; em que os opositores e dissidentes foram rotineiramente perseguidos com a perda dos direitos políticos, a detenção arbitrária, a prisão e o exílio; onde a tortura, os assassinatos, os desaparecimentos forçados e a eliminação física foram sistematicamente utilizados contra aqueles que se insurgiam. Neste cinquentenário, a Comissão Nacional da Verdade quer homenagear essas vítimas e reafirmar sua determinação em ajudar a construir um Brasil cada vez mais democrático e mais justo.

A Comissão Nacional da Verdade nasceu com o objetivo de examinar e esclarecer as graves violações de direitos humanos praticadas no período. Baseia-se na convicção de que a verdade histórica tem como objetivo não somente a afirmação da justiça, mas também preparar a reconciliação nacional, como vem assentado no seu mandato legal. Esteia-se na certeza de que o esclarecimento circunstanciado dos casos de tortura, morte, desaparecimento forçado, ocultação de cadáver e sua autoria, a identificação de locais, instituições e circunstâncias relacionados à prática de violações graves de direitos humanos, constituem dever elementar da solidariedade social e imperativo da decência, reclamados pela dignidade de nosso país. Não deveria haver brasileiro algum ou instituição nacional alguma que deles se furtassem sob qualquer pretexto.

No ano passado comemoramos os vinte cinco anos da promulgação da Constituição Brasileira de 1988. Oitenta e dois milhões de brasileiros nasceram sob o regime democrático. Mais de oitenta por cento da população brasileira nasceu depois do golpe militar. O Brasil que se confronta com o trágico legado de 64, passados cinquenta anos, é literalmente outro. O país se renovou, progrediu e busca redefinir o seu lugar no concerto das nações democráticas. Não há por que hesitar em incorporar a esta marcha para adiante a revisão de seu passado e a reparação das injustiças cometidas. Pensamos ser este o desejo da maioria. É certamente o sentido do trabalho da Comissão Nacional da Verdade.

Brasília, 30 de março de 2014

COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE

Flávio Dino: "Estamos lutando contra um império"


Ao cumprir agenda política em Imperatriz neste final de semana, o pré-candidato ao governo do estado, Flávio Dino (PCdoB), reafirmou compromisso de elaborar seu programa de governo com base nas reivindicações populares que tem colhido em suas viagens pelo interior com o movimento "Diálogos pelo Maranhão". 

Na noite de sexta-feira 28, o pré-candidato participou da inauguração da nova sede do PCdoB, acompanhado do pré-candidato ao Senado, Roberto Rocha, atual vice-prefeito de São Luís, de três deputados federais e de parte da bancada oposicionista na Assembléia Legislativa, dos vereadores de oposição de Imperatriz, pré-candidatos a deputados estadual e federal, e lideranças políticas e comunitárias de 22 municípios da região tocantina. 

"Temos uma batalha, e há quem pense que está longe. Não, está perto. Estamos a 25 semanas da eleição e precisamos estar a cada dia mais unidos, compreendendo a gravidade dessa hora. Homens e mulheres comuns, que tem lutas e sonhos, que acreditam na justiça de Deus e dos homens, precisamos marchar juntos nesse projeto que é de todos", disse em breve discurso.   

Flávio Dino frisou que a campanha é dura e uma provável vitória da oposição nas urnas  só ocorrerá com união e adesão popular. Disse que ele e o pré-candidato ao Senado, Roberto Rocha, estão bem avaliado nas pesquisas, mas alertou para o comodismo do 'já ganhou'. "Estamos na frente das pesquisas, mas não se ganha eleição de véspera. Estamos na frente, mas temos humildade, pés no chão. Estamos lutando contra um império. D. Pedro II governou 49 anos, e esse sistema que aí está que governa o Maranhão tem hoje exatamente 49 anos. Até os impérios caem, e chegou a hora da queda desse sistema que não responde mais às necessidades de nosso povo".

"Peço que vocês lutem, que vocês batalhem, e vim aqui dividir com vocês a responsabilidade pela condução dessa campanha. É uma tarefa grandiosa. Divido essa responsabilidade com cada um dos maranhenses. Que sopre o vento da mudança, que vençamos a eleição para mudar para sempre a história do Maranhão", afirmou.  

Diálogos com a Juventude

Na manhã do sábado 29, Flávio Dino e comitiva se encontraram com centenas de jovens de municípios da região no auditório da Fama na abertura do movimento "Diálogos com a Juventude", o primeiro de dezenas de outros que acontecerão em todas as regiões do Estado.

O pré-candidato fez uma explanação dos problemas sociais e econômicos do estado e respondeu perguntas da platéia sobre os mais variados temas, destaques para educação, saúde, oportunidades de trabalho para os jovens e políticas para a juventude.  

"Mais uma vez conclamou a juventude a se engajar no processo de mudança política e social do Maranhão. "É uma luta de quem já passou, de quem lutou contras as injustiças, mas agora também uma luta de nós todos que estamos aqui, e de quem ainda virá, como nossos filhos e nossos netos", declarou.

"Não estou em busca de poder, porque quem quer ser poderoso se perde no caminho do egoísmo, da vaidade e da mentira", disse, ao ser questionado sobre sua candidatura. "Estou candidato a serviço, como servidor público, da nova política de respeito às pessoas".

Aos jovens, pediu "a verdade, a lealdade, as coisas boas da vida", que "compartilhem com todos os sonhos, as lutas, as determinações de justiça e respeito".

"Conto com a juventude de Imperatriz, com a juventude da região, para que possamos mostrar ao Brasil que o Maranhão encontrou um caminho diferente", disse.

No final do encontro, o pré-candidato, todas as lideranças políticas e participantes assinaram um painel que será usado como símbolo em outros encontros da juventude e como marca da participação direta da juventude na campanha.

À tarde, Flávio Dino e comitiva viajaram para Timon, onde participaram de mais encontro do "Diálogos pelo Maranhão". (Carlos Gaby) 

Publicado originalmente em O Progresso, edição de terça-feira 01 de abril de 2014

ENTREVISTA DA EX-PRIMEIRA DAMA MARIA THEREZA GOULART A ISTOÉ


"Nós saímos daqui correndo, deixamos tudo para trás. A gente passou a viver com sofrimento"

Aos 73 anos, a viúva do ex-presidente João Goulart fala dos dias que antecederam o golpe militar, revela como era a vida do casal e lembra a angústia dos anos de exílio

Eliane Lobato (elianelobato@istoe.com.br)

Viúva do ex-presidente João Goulart (1919/1976), Maria Thereza Goulart tem planos frugais para a segunda-feira 31 de março, data da efeméride dos 50 anos do golpe militar que depôs seu marido: viajará para Porto Alegre (RS) com a filha, Denise, e desfrutará do descanso com a família. Há quase meio século, em 1º de abril de 1964, ela, o marido e os dois filhos tiveram de sair às pressas do País em direção ao Uruguai, onde iriam se exilar. Antes de partirem de Porto Alegre, o então deputado federal Leonel Brizola (1922/2004) sugeriu um movimento de resistência ao golpe, mas Jango não consentiu por, entre outras coisas, temer um derramamento de sangue. São momentos tensos que voltam à memória de Maria Thereza, hoje com 73 anos, e provocam tristeza, embora ela lute contra a melancolia que este passado evoca. Arredia a entrevistas, a ex-primeira-dama conversou com ISTOÉ com exclusividade. Contou que escreveu um diário no exílio e que esse material vai virar um livro. Mas só após sua morte. “Antes, não. Acho que há pessoas que não vão gostar. Não tenho coragem de enfrentar isso agora.”


À ISTOÉ, Maria Thereza disse ainda que a famosa foto em que ela aparece ao lado do marido no palanque do histórico comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964, não revela seu verdadeiro estado íntimo. A imagem da mulher apontada como uma das dez mais lindas do mundo pela revista “Time” não exprime a apreensão que sentia. “Estava gelada, dura por dentro”, conta. Poucos minutos antes, Jango havia tido queda de pressão. Muitos amigos e correligionários tentaram dissuadi-lo de ir ao comício, mas “ele estava com ideia fixa” e “preparado para o que ia acontecer”, declara ela.

Para a jovem primeira-dama que nunca tinha pisado em um palanque, saber que eles poderiam ser alvo de um atentado a era atemorizante. De fato, houve esse temor, fazendo com que Jango aumentasse o aparato de segurança do evento. Segundo ela, a pouca idade – 24 anos em 64 – ajudou-a a superar as angústias dos momentos que antecederam o golpe. Mesmo assim, desabafou: “Para mim foi tudo muito tenso. O golpe de 64 destruiu a minha família. Tivemos que sair correndo, deixar nossa vida, tudo nosso para trás. Destruiu porque tirou tudo da gente. A gente passou a viver com sofrimento”.


Nascida em São Borja, a quase 500 quilômetros de Porto Alegre, Maria Thereza se casou com Jango aos 17 anos de idade e foi a primeira-dama mais jovem que o País já teve. Após a morte do marido, na Argentina, em 1976, demorou ainda alguns anos para voltar a viver no Brasil e escolheu o Rio de Janeiro, onde ainda mora, perto dos filhos, netos e bisnetos, para passar o resto de seus dias. Apesar de tudo, se declara feliz.

ISTOÉ – Como a sra. vê o País neste momento, 50 anos depois do golpe militar que derrubou seu marido da Presidência?
Maria Thereza Goulart – Sinto, neste momento, o resgate justo da memória do Jango. Isso é mais importante do que o resgate do meu marido. Não espero que ele seja transformado num Deus, não digo que ele tenha sido perfeito. Mas Jango foi um grande patriota, um presidente que amou o País, sobretudo. Pode ter tido seus defeitos, como todos, mas vai ficar guardado na memória com respeito e dignidade.

ISTOÉ – Como a sra. recorda de seu papel naquele momento?
Maria Thereza – Minha presença ao lado dele foi importante, procurei ser companheira. Nunca fui muito política. Vivemos momentos muito assustadores. Meu marido já tinha previsto o futuro, quando saímos para o exílio. Jango já estava marcado pelo golpe. Mas eu até pensei que voltaríamos. Jango estava preparado, achou que era o momento de ele renunciar. Mas, para mim, foi tudo muito tenso. Acho que a minha pouca idade até ajudou a ter forças para viver aquilo. O golpe de 64 destruiu a minha família. Nós saímos daqui correndo, deixamos nossa vida, tudo nosso para trás. O golpe tirou tudo da gente. A gente passou a viver com sofrimento.

ISTOÉ – A sra. não gosta de falar sobre isso?
Maria Thereza – Sou permanentemente convidada para dar entrevistas, participar de eventos, mas te digo, sinceramente, não gosto, evito. Primeiro porque fico triste. Não gosto de ficar falando das tristezas do passado. Segundo porque pensar em tudo o que poderia ter acontecido de pior ainda me assusta. Ajudei a criar meus oito netos, tenho meus dois filhos amados... A vida foi continuando.

ISTOÉ – Depois do golpe, a sra. sabia que iria para o Uruguai e imaginava que viveria lá por tanto tempo?
Maria Thereza – O desterro foi muito cruel, especialmente para o Jango. Mas eu não sabia, com antecedência, o nosso destino. Quando saímos, com as duas crianças, é que me disseram que eu ia morar no Uruguai. Não sabia de nada até então.


ISTOÉ – Como era a vida no exílio?
Maria Thereza – Era difícil porque estávamos longe de todos os que amávamos, das nossas coisas. Eu sentia medo do que pudesse nos acontecer lá. Jango sofria calado, não era de ficar reclamando, fraquejando. Perdi meu pai e minha mãe no Brasil e não pude chegar perto. Era muita tensão, Jango sabia de tudo o que estava acontecendo no Brasil, dos horrores todos. O medo tornou-se um grande inimigo capaz de me confundir entre o ódio e o perdão.

ISTOÉ – A foto da sra. no palanque do comício na Central do Brasil, no dia 13 de março de 1964, mostra uma mulher extremamente bonita e passa a imagem de força, segurança. A sra. se sentia assim?
Maria Thereza – Essa imagem é, na verdade, de apreensão extrema. A foto não mostra tudo. Eu estava com muito medo. Estava gelada, dura por dentro. Nos disseram que poderiam ser jogadas bombas no palanque, no meio das pessoas. Jango teve uma queda de pressão antes, estava muito tenso. Tínhamos noção do que poderia acontecer ali. Mas ele estava firme, preparado. Disseram para ele não fazer aquele comício, mas não adiantavam os conselhos. Ele estava com ideia fixa, estava realmente preparado para o que pudesse acontecer.

ISTOÉ – A sra. subiu em palanque alguma outra vez na vida, além dessa?
Maria Thereza – Nunca mais. Nem antes eu tinha vivido isso. Só subi em palanque naquele comício da Central.

ISTOÉ – Por marcar meio século do golpe militar, este ano a data de 31 de março será diferente para a sra.? Onde pretende passar o dia e o que pretende fazer?
Maria Thereza – Vou para Porto Alegre com minha filha, Denise. Vamos participar de um evento lá. É difícil para mim, porque me emociono. Mas vou, acho que devo e que estou preparada. E só. O resto, será comigo mesma e minha família.

ISTOÉ – No ano passado teve início a exumação do cadáver de Jango. Qual é a sua expectativa do resultado das análises?
Maria Thereza – Poderá nos ajudar a tirar essa dúvida da cabeça. A gente vai sair desse estado de incerteza, questionamentos, espero – embora ache difícil depois de tantos anos. Fui contra isso durante muito tempo. Não queria porque sabia que seria muito doloroso, como de fato foi. Desabei naquele momento, perto do caixão de Jango de novo. Eu sempre achei que ele tinha morrido de infarto. Mas tantas dúvidas foram sendo levantadas, tanta polêmica... Hoje, acho possível, sim, que tenham envenenado algum dos remédios que ele tomava para o coração. Pode ter havido troca do remédio, sim.

ISTOÉ – A sra. acha importantes esses movimentos em busca de um passado? O que pensa do trabalho da Comissão Nacional da Verdade?
Maria Thereza – Muito importante. As pessoas precisam saber o que aconteceu, que fim tiveram os que desapareceram. Vivemos um momento muito importante. Essas medidas já deveriam ter sido tomadas, mas não foram antes dos governos do Lula e da Dilma. A iniciativa foi deles. Ninguém antes foi capaz de tomar uma atitude dessas. Fiquei arrasada com os depoimentos desse militar (coronel Paulo Malhães) que disse as coisas horríveis que faziam com quem lutava contra o regime. Como uma pessoa ainda tem coragem de contar? Mas é importante a gente saber, sim. Mesmo com todo o sofrimento que provoque, especialmente para os familiares.

ISTOÉ – Quando pensa sobre o passado, o que prevalece nas lembranças?
Maria Thereza – A certeza de que fui casada com um homem maravilhoso, que tive uma vida maravilhosa até acontecer o golpe. Sou a mesma pessoa simples. Minha vida mudou muito, mas eu não mudei. O grande mérito, acho, foi ter entendido que o que aconteceu no passado faz parte do passado. Me acho meio provinciana até hoje. Vou a São Borja, onde nasci. Me reencontro comigo lá.

ISTOÉ – Não pretende contar sua história em livro?
Maria Thereza – Olha, vou contar: comecei um diário quando estava no exílio, que vai virar um livro um dia, quando eu não estiver mais aqui neste mundo. Escrevi muitas partes em espanhol. Falo de tudo o que aconteceu, conto tudo. Pedi à minha família para só publicar quando eu não mais estiver aqui, porque pode ser que algumas pessoas não gostem, não tenho muita coragem de enfrentar isso.

ISTOÉ – Recentemente, tentaram reeditar a Marcha da Família com Deus, a exemplo do ocorrido em 1964. O que achou?
Maria Thereza – Ainda tem gente que tem coragem de fazer isso?! Ainda tem tempo? Me disseram que foi um fiasco horrível. Imagino que tenha sido mesmo.

ISTOÉ – Como foi a convivência com o poder?
Maria Thereza – No início foi muito difícil me adaptar. Mas, como ele era vice-presidente, fui aprendendo e contei com a ajuda de pessoas como a dona Risoleta (mulher de Tancredo Neves, político) e Iara Vargas (política e sobrinha do presidente Getúlio Vargas). Elas me orientavam muito, em tudo. Fizemos, eu e Jango, uma viagem belíssima para os Estados Unidos, a convite de (Richard) Nixon (presidente americano). Foi uma vida de glamour, mas eu sabia que tinha que manter os pés no chão, que não podia me deslumbrar para não me perder no meio daquilo. De certa forma, eu já tinha uma relação com o poder de longe porque minha tia era casada com um irmão de Getúlio (Vargas), frequentava o palácio. Olha, o que posso dizer é que o poder chega e passa.

ISTOÉ – Como foi depois da morte de Jango? 
Maria Thereza – Meus dois filhos são meus dois grandes amigos, companheiros. Fui avó cedo, com 37 anos. Meu neto, o Cris (Christopher), é uma grande paixão, e me ajudou muito. Ele é o que mais gosta de política.



ISTOÉ – Como é a sua vida no Rio?
Maria Thereza – Gosto muito de viver no Rio. Sou andarilha, faço caminhadas na praia, ginástica, estou sempre em movimento. Quase nem assisto televisão. Estou agora na fase do check up anual, me cuido. E estou preparando uma festa para uma afilhada, filha de uma ex-empregada que é amiga, na Baixada Fluminense, onde ela mora. Serei madrinha de batismo e, por isso, estou fazendo um curso preparatório. A festa será lá, onde vou sempre. Aliás, meu médico veio de Cuba e trabalha lá na Baixada: é o João Marcelo (Goulart, neto). É um grande médico, tenho muito orgulho dele e de todos os outros netos também. Minha família é a minha segurança, meu apoio, alegria.

ISTOÉ – A sra. é vaidosa? Já fez plástica?
Maria Thereza – Sim, mas sem exageros. Mantenho os 46 quilos que tinha quando casei. Mas não me privo de comer coisas de que gosto para manter o corpo. Como tudo o que tenho vontade, até sanduíche. Fiz uma plástica, um minilifting. E estou querendo fazer outra.

ISTOÉ – O Jango era um homem bonito e assediado pelas mulheres, não é? Tinha ciúmes?
Maria Thereza – Não tinha ciúmes. Ele sempre disse: nunca vou deixar de voltar para casa. Mas tinha uma vida fora de casa – e, aliás, vou dizer: isso era muito bom, se ficasse muito tempo não ia dar certo. Casamento é assim. Dentro de casa, Jango era um doce de pessoa, adorava os filhos, era uma festa quando ele chegava. Era um pai maravilhoso

ISTOÉ – A sra. ouvia falar que ele tinha casos extraconjugais?
Maria Thereza – Tinha conhecimento, sim. Mas as pessoas falavam mais do que acontecia. Ele tinha alguns casos, todos os políticos tinham, e muitos ainda têm. Mas ele sempre voltava para casa. Jango era perseguido político e na vida íntima. Diziam que ele tinha várias mulheres. Não eram tantas. Ele gostava, não vou dizer que não. Quando ele era solteiro, sabia que tinha algumas em Porto Alegre, mas eu nunca vi. Falavam de uma moça no Uruguai. Nós morávamos em Punta del Este, eu sabia que tinha essa pessoa, mas nunca vi essa criatura que diziam que o acompanhava a lugares. Nossa vida não foi alterada por causa disso. Mas hoje inventam, publicam falsidades, fartam-se com mentiras que vendem. Falar mal de pessoas, especialmente as que não estão mais aqui para se defender, é muito sério. Tenho horror disso. Infelizmente, vão muito além da verdade e criam fantasias.

ISTOÉ – Falavam da sra. também, não é?
Maria Thereza – Sim. Me arrumaram tantos casos aqui no Brasil... Mas quando eu poderia ter algum caso se vivia cercada por seguranças? Nunca aconteceu nada disso.

ISTOÉ – A sra. não quis se casar novamente?
Maria Thereza – Não. Tive uns três relacionamentos mais sérios, mas acabaram não dando certo. Acho que tudo ficou muito marcado na minha vida, não consegui. Namorei um gaúcho bem mais jovem, e também gostei muito de um canadense, de um banco do Canadá. Mas não consegui. Tudo bem. Tenho uma família maravilhosa, amizades verdadeiras, sou feliz. Sou a Tetê de sempre.

ISTOÉ – O Jango também a chamava de Tetê?
Maria Thereza – Não. Ele me apelidou de Teca. Só ele me chamava assim. Tenho uma foto dele, quando ainda era ministro do Trabalho e namorávamos, com a dedicatória: “Para Teca, com carinho, Jango.”

FOTOS: ISMAR INGBER/AJB, Folhapress; Instituto João Goulart, Agencia RBS

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