A escolha mais difícil

Vereador é o fiscal dos recursos públicos e dos atos de um gestor, e o legislador mais próximo do cidadão. Seu contato com o eleitor é direto, antes e depois de eleito. Por isso, em tese, deveria ser o mais respeitado, prestigiado e elogiado membro dos parlamentos do País. Infelizmente, não é isso que ocorre, pelos motivos que estamos cansados de saber. A maioria, comprovadamente, nos municípios brasileiros, só pensa em ajeitar-se e ajeitar apadrinhados, viver aos pés do prefeito, pensar projetos nada interessantes ou inovadores, e praticar a política do clientelismo e das promessas vazias. Raras são as exceções. Bastar ver os exemplos.

Evoluímos muito, mas quase ainda não saímos do lugar. Vá a uma sessão da Câmara Municipal para testemunhar o marasmo. Votações inócuas, indicações pedindo asfaltamento, piçarramento e iluminação de ruas que o Executivo Municipal nunca vai atender, debates frios, pouca criatividade. Até mesmo a velha eloquência dos tribunos, é lembrança perdida no tempo.

Eleição de vereador é a mais difícil numa disputa eleitoral. Cada voto é disputado corpo a corpo, como uma batalha de dois contendores apenas, o candidato e o eleitor. É um voto muito pessoal, por razões diversas, seja por um favor material, por amizade ou simpatia, por indicação de um conhecido. Poucas vezes, por ideologia ou pelas propostas do candidato.

Este ano teremos uma eleição mais acirrada ainda, em Imperatriz. Serão mais oito vagas em jogo – as vagas sobem de 13 para 21.

Na eleição de 2008, foram 155 candidatos. Este ano, o número de postulantes passa com folga das duas centenas. Devemos ter, por baixo, quase duas dezenas de partidos, muito deles que nem conhecemos. É uma guerra de combate intenso, sem tréguas.

Dos atuais detentores de mandato, a maioria acredita numa reeleição. Difícil prever. Certamente já largam na frente dos que, pela primeira vez – ou que ainda não tiveram o sabor da vitória – disputam o pleito.

É uma oportunidade de renovação. Esperamos que não só de nomes, mas de mentalidade, de atitude, de perfil, de respeito às práticas da ética e ao cidadão.

As pessoas não vivem no Estado, uma figura administrativa e jurídica. As pessoas vivem nas cidades. É nas cidades que as pessoas alimentam e realizam seus sonhos, lutam, criam seus filhos. Portanto, é nas cidades que estão suas vitórias, suas derrotas, seu passado, presente e futuro, seus problemas, e suas alegrias.

O vereador, também cidadão, é o eco da satisfação ou insatisfação do cidadão. Pelo menos na teoria inocente nossa de cada dia.

Estamos em uma via de mudanças, crescimento e desenvolvimento, e devemos ter uma participação pró-ativa e afirmativa nesse processo de renovação. Aqui vai gancho para a participação da mulher nessa engrenagem toda. Já tivemos em Imperatriz, mulher presidente da Câmara, já tivemos legislaturas com três ou quatro representantes mulheres. A lei diz que cada partido deve reservar 30% das vagas de candidatos a vereador para as mulheres. A maioria não preenche essas vagas, e, preenchendo totalmente ou não, sempre usam suas candidatas para amealharem seus votinhos e jogá-los na legenda ou coligação, para favorecer candidatos homens. Vereador bom independe do gênero.

Com o amadurecimento da democracia e da opinião pública, a vigilância dos meios de comunicação, o fortalecimento das entidades da sociedade civil organizada e dos direitos humanos e das minorias, e das várias instâncias do Judiciário e do Ministério Público, o mínimo que o eleitor deve fazer é refletir duas vezes antes de decidir-se sobre seu candidato. O que está em jogo não é o estado de sua rua, o emprego do parente ou amigo, o favorecimento pessoal, mas o futuro de sua cidade, de um projeto em que a educação, a saúde pública, a qualidade de vida, o emprego, o meio ambiente e a segurança sejam realmente prioridades, em leis e na cobrança, no cumprimento e na fiscalização dessas leis.

Devemos refletir para escolher bem nossos vereadores, mesmo que depois nos decepcionemos (a democracia só funciona com a alternância e renovação de poder). O mais importante é termos a consciência tranquila, a decência de que escolhemos nossos representantes na Câmara Municipal pensando na cidade, na nossa cidade.

Publicado originalmente em Correio Popular (www.jornalcorreiopopular.com), edição de quinta-feira, 15/03/2012

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