UMA TRISTE SINFONIA DA OPRESSÃO



A semana está sendo muito dolorosa para a presidente Dilma Rousseff. Lembra-se os 50 anos  do golpe de Estado contra o presidente João Goulart que levou à ditadura dos militares por quase três décadas. A presidente, com todas as manifestações e lembranças da negra passagem de nossa história, vê seus fantasmas atormentarem seu espírito e seu corpo. Será uma luta sem fim, até o fim, infelizmente para esta grande brasileira. 

Dilma chora no Rio de Janeiro ao lembrar a volta dos exilados ao país

Presa e torturada, caluniada, indeléveis chagas na alma, ela sobreviveu e ressurgiu. A cela escura e fria, o soluço silencioso, a degradação moral a que foi injustamente condenada, a carne trêmula e os nervos esquecidos, o espírito encolhido e triste flutuando na melancólica sinfonia da solidão. Porque nela a consciência e o sonho de igualdade tornaram-se rochas da ação real. Por isso, foi levada ao grande poço.

Desde que o mundo é mundo, o homem sempre se insurgiu contra a opresão, contra as injustiças, contra as tiranias. E esta história está recheada de valentia e fidelidade de mulheres de aço.

Na história do Brasil há casos emblemáticos, como os das mineiras do período colonial que apoiavam seus maridos conspiradores na Conjuração Mineira contra o domínio português. As mulheres dos anarquistas e líderes sindicais, dos comunistas, da já cosmopolita São Paulo dos primórdios do século 20.

No entre-guerras - e talvez de toda a historiografia política brasileira - um dos mais emblemáticos foi o de Olga Benário, a comunista judia alemã, companheira do líder comunista Luís Carlos Prestes. Presa pela ditadura de Getúlio Vargas, deportada grávida para a Alemanha, encarcerada em uma prisão da Gestapo para mulheres, separada da filha após o fim do período de amamentação, triturada, assassinada numa câmara de gás em campo de extermínio em 23 de abril de 1942 com mais 199 prisioneiras.

A BORBOLETA

Dilma Rousseff sobreviveu, restaurou em parte sua paz, ascendeu ao cargo maior da República pelo voto popular e está contribuindo para construir uma nova página de seu país, que busca a redenção social e seu lugar na geopolítica mundial.

Ela e dezenas de outras estiveram na retaguarda, na ação direta, na luta contra o regime militar que perseguiu, torturou e assassinou brasileiros que ousaram enfrentá-lo.

Porém, é preciso registrar aqui, por fim, a história de uma dessas mulheres de ação cujo mito povoa as cabeças de quem diretamente participou das ações do período mais duro da repressão militar, de lado a lado, ou dos que ouviram histórias e estórias sobre ela. Dinalva Oliveira Teixeira, Dina, baiana de Castro Alves, nascida em 16 de maio de 1945.  

Militante do PCdoB e guerrilheira no Araguaia, Dina, segundo registra o jornalista Leonencio Nossa em "Mata! O Major Curió e as Guerrilhas no Araguaia" (Companhia das Letras) foi presa no dia 24 de junho de 1974.

Sobrevivente em pelo menos duas emboscadas, Dina tornou-se um mito como Osvaldão, comandante de um dos destacamentos e estrategista da guerrilha, negro, ex-pugilista, formado engenheiro na Checoslováquia, gigante com quase dois metros de altura, treinado na China, diziam que se transformava em pedra e árvore na floresta, um dos primeiros a chegar ao Araguaia.

Osvaldão: pesadelo para os militares, 'virava' pedra e árvore na selva

Geóloga, "vaidosa e extrovertida" - segundo registra o jornalista no livro - virou 'prêmio' para os militares. Foi a única mulher da guerrilha a ocupar o sub-comando de um destacamento. Atirava bem e tinha bom preparo físico. Era admirada pelos moradores da região. O comandante da guerrilha, Maurício Grabois, morto na selva em condições precárias de saúde, sabia de sua tenacidade.

Sobreviveu ao ataque ao comando militar da guerrilha no Natal de 1973, no qual Grabois, o comandante-geral, foi abatido. Desapareceu na selva até junho de 1974, quando foi capturada. Estava doente e fraca. Levada para a base de Xambioá, ficou presa e foi torturada por duas semanas. Curió chegou a afirmar no livro que a abatera em combate. Rebatido pelo jornalista, vacilou. Dina teria sido levada de helicóptero a uma mata próxima e executada a tiros pelo sargento Joaquim Arthur Lopes de Souza, o Ivan, um dos militares infiltrados como civis na área da guerrilha, em julho de 1974. Seu corpo nunca foi encontrado.
Dina, a Borboleta: executada, seu corpo nunca foi encontrado 

O mito foi um mito até o final. O diálogo com seu executor (verdadeiro ou não) é passagem a ser estudada. Teria perguntado ao algoz se chegara sua vez. Ele respondeu que sim. Então, teria emitido sua última ordem: "Quero morrer de frente!".

A Borboleta voou. 

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