ARQUIVO: A tragédia dos Gemayel reflete a história recente do Líbano

Bachir: de estrela da guerra à presidência, morto num atentado
O assassinato de Pierre Gemayel em 21 de novembro de 2006 põe em evidência o destino sombrio que persegue esta família de líderes libaneses há mais de trinta anos

Por Mouna Naïm
correspondente em Beirute, Líbano

Bikfaya tenta penosamente despertar do pesadelo. Nesta cidadezinha empoleirada no meio do maciço montanhoso do Metn, a nordeste de Beirute, a vida vai retomando seu curso, com grande dificuldade. Afixado num cartaz na entrada da cidade, um retrato do filho do país, o falecido Pierre Gemayel, assassinado na terça-feira, 21 de novembro em Beirute, aviva a dor. Uma calma pesada sucedeu-se ao desfile ininterrupto de personalidades dos mais diversos setores, de amigos e simpatizantes, que vieram de todos os lugares para apresentar as suas condolências à “família”. “Que Deus os ajude”, diz sobriamente a livreira. “Todo mundo está triste”.

O feudo dos Gemayel desde meados do século 16, a “Casa de Rocha” - este seria o significado da palavra “Bikfaya” em língua siríaca - está sob o choque da perda de “xeique Pierre” e da tragédia que persegue a sua família já faz trinta anos. O título de “xeique” nada tem a ver aqui com qualquer status religioso. Trata-se de um título honorífico que detêm os membros de certas grandes famílias que se distinguiram a serviço do interesse geral ao longo da história. Os Gemayel são maronitas (católicos), isto é, membros de uma das comunidades libanesas numericamente as mais importantes.

Em seu livro de concepção bastante hagiográfica, “Os Gemayel na história do Líbano” (em árabe), o biógrafo Antoun Cheebane indica que eles são “xeiques” desde o século 17.

Os Gemayel, ou mais precisamente os descendentes de Pierre Gemayel, o fundador, há 70 anos, do partido das Kataëb (Falanges), pagaram um pesado tributo pelas turbulências que vêm agitando o Líbano desde meados dos anos 70. Do seu neto Amine Al-Assouad, até o seu outro neto, o defunto ministro da indústria - que, conforme manda a tradição, tem o nome do seu avô -, passando por Maya, a sua neta, e Bachir, o seu filho e antigo presidente eleito, a série trágica teve início em 1976. Todos pagaram pela sua lealdade à linha seguida pelo partido.

Pierre, o patriarca, passou uma parte da sua infância no Egito, para onde o seu pai, Amine Gemayel, um médico, havia se exilado junto com a sua família no início da Primeira Guerra mundial. Este exílio havia sido ditado pelas ameaças que pesavam sobre o Dr. Gemayel, muito próximo aos cônsules franceses desde a entrada das tropas turcas no Monte Líbano, em violação do Regulamento orgânico que, desde 1861, subtraía esta região da autoridade da Sublima Porta (nome pelo qual ficou conhecido o sultão da Turquia e a sua corte).

No final da Grande Guerra, a família retorna ao Líbano, onde Pierre prossegue a sua escolaridade, até optar por estudos de farmácia no Líbano, e depois na França. Aficionado de esportes, entre outros de futebol, ele funda a Equipe da Juventude Católica, e mais tarde a Liga libanesa de futebol. Ele se interessa pouco pela política.

O ano de 1936 constitui uma guinada em sua vida. Na qualidade de presidente da Liga de futebol, Pierre Gemayel assiste aos Jogos Olímpicos de Berlim, organizados pelo regime nazista. Seduzido pela ordem e a disciplina, ele tira dessa experiência a idéia de que é preciso organizar a juventude e, inspirado num modelo nacionalista paramilitar, ele funda o Movimento das Kataëb (Falanges).

Dos cinco membros fundadores em nome dos quais o movimento foi criado, só resta, um ano mais tarde, Pierre Gemayel, mas os aderentes são cada vez mais numerosos. O movimento, que está decidido a se manter a igual distância dos partidários da unidade síria e dos partidários de um Líbano província francesa, reivindica “um Líbano soberano e independente, aliado e amigo da França”. Na época, o país do Cedro ainda se encontra sob mandato francês.

Em teoria, o movimento, cujo lema é “Deus, família, pátria”, está aberto a todas as confissões. Mas, de fato, ele é exclusivamente cristão. Em duas oportunidades, em 1937 e em 1940, Pierre Gemayel, junto com outras personalidades, é preso pelas forças francesas por ter participado dos protestos populares que reclamavam a independência. Esta soberania se tornará efetiva em 1943. A partir de 1960, Pierre Gemayel é regularmente eleito deputado de Beirute e, por vezes sucessivas, nomeado ministro, até a sua morte, em agosto de 1984.

Aqueles que o acompanharam na sua trajetória política afirmam que ele sempre foi partidário da coexistência entre as comunidades. Os adversários das Kataëb durante a guerra civil, que durou de 1975 a 1990, as consideram antes como “isolacionistas”.

Em 13 de abril de 1975, Pierre o patriarca, escapa de um atentado que teve conseqüências desastrosas para o país como um todo. No momento em que ele está participando da inauguração de uma igreja, no bairro cristão de Aïn Remmaneh, Gemayel, que sempre denunciou a presença armada palestina no Líbano, é alvo de tiros de fedayins (guerrilheiros que lutam pela criação de um Estado palestino). Como resposta, algumas horas mais tarde, os falangistas atacam um ônibus transportando palestinos que passa pelo mesmo lugar.

É o início de um ciclo infernal de violência que vai pôr o país a fogo e a sangue durante quinze longos anos. O conflito opõe as forças chamadas palestino-progressistas às milícias cristãs, cuja facção armada do partido das Kataëb é a coluna vertebral.

Um ano depois de esta guerra ter sido desencadeada, Pierre Gemayel destaca-se como um dos pilares da Frente Libanesa, que acaba de ser constituída pelos líderes cristãos. É o seu filho caçula, Bachir, que será a estrela em ascensão desta guerra. No momento em que a política cedeu o lugar para a linguagem das armas, Bachir está à frente da facção paramilitar do partido. E ele se impõe como líder.

Por mais que as milícias Kataëb e aquelas da outra grande agremiação cristã, o Partido Nacional Liberal (PNL) estejam no mesmo campo, as suas rivalidades perduram. Elas se traduzem por altercações cada vez mais freqüentes, até o ano de 1979, quando Bachir decide de pôr ordem nas suas fileiras. Ele trava combates impiedosos com os seus aliados adversários. Os combates deixam um saldo de 150 mortos e centenas de feridos, mas resultam na vitória de Bachir. Daqui para frente, à frente de todas as milícias cristãs, reunidas sob o nome genérico de Forças Libanesas, ele se impõe como o homem forte do campo cristão.

Ele ofuscará o seu pai e os outros dirigentes cristãos. Ele também curto-circuita a ascensão do seu irmão primogênito, Amine, pouco interessado na manutenção da força paramilitar e suposto herdeiro do legado político do patriarca, conforme manda a tradição das dinastias familiares libanesas. As relações entre os dois irmãos revelam-se particularmente conturbadas. A estatura de Pierre, ao mesmo tempo “pai da família” e “chefe superior” do partido, amortece as divergências.

Em fevereiro de 1980, a guerra entrou no seu quinto ano. Bachir, adoentado, evita sair de casa. Com isso, ele escapa de um atentado perpetrado por palestinos, mas no qual a sua filha Maya é morta. Ela tinha 20 meses. Dois anos mais tarde, em 14 de setembro de 1982 muito precisamente, ou seja, 21 dias após ter sido eleito presidente da República, Bachir, que é o principal artesão da reconciliação entre as Forças libanesas e Israel, é assassinado num outro atentado. O exército israelense ocupa então o Líbano já faz várias semanas.

Preso, o autor do atentado vem a ser um membro do Partido Nacionalista Socialista (PNS), partidário da “Grande Síria” e inimigo jurado das Kataëb. O PNS afirma que o autor do atentado estava agindo por encomenda dos palestinos. Pouco importando qual seja a verdade, três dias mais tarde, as Forças libanesas, querendo vingar a morte do seu chefe entram nos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, na periferia sul de Beirute. Protegidos pelo exército israelense, os milicianos cristãos vão cometer verdadeiros massacres, matando entre 900 e 3.000 refugiados, segundo as estimativas, em menos de 48 horas.

Eleito em 21 de setembro de 1982, Amine, o irmão primogênito de Bachir, ascende à presidência. Seis anos mais tarde, no final de um mandato criticado por ao menos uma parte do país, e durante o qual um “tratado de paz” foi negociado com Israel, e então posto em xeque pela Síria, o Líbano está profundamente dividido. A guerra civil segue assolando o país. Uma vez que o Parlamento não conseguiu eleger seu sucessor, Amine Gemayel entrega a presidência da República ao comandante em chefe do exército, o general Michel Aoun, e se exila na França junto com a sua família.

Pierre, o seu filho primogênito, retorna ao país em 1992, e resolve empreender estudos de direito. Ele articula o retorno do seu pai ao Líbano e é eleito deputado no ano de 2000. Ele se empenha em conferir um novo dinamismo ao partido, que vivia então um processo de enfraquecimento, e em reunificar suas fileiras depois de uma cisão. No quadro da direção do partido, que conta com as suas capacidades de sedução e de convicção para atrair os jovens, ele representa a nova geração. Ele será bem-sucedido, muito além de todas as previsões.

Por ocasião das manifestações e dos comícios populares organizados pela maioria política anti-síria depois do assassinato do antigo primeiro-ministro Rafic Hariri, em fevereiro de 2005, Pierre Gemayel beneficia, pela primeira vez, de uma boa repercussão, verdadeiramente nacional, por parte dos meios de comunicação. Reeleito deputado na primavera de 2005, nomeado ministro da Indústria em julho, ele é assassinado em 21 de novembro de 2006. Ele tinha 34 anos.

Numa exceção à regra, Sami, o seu irmão, não é membro do partido. Tensões opunham-no ao ministro assassinado a respeito da linha política a ser seguida. Uma vez que ele nunca acreditou na reunificação do partido, embora esse fosse um objetivo que Pierre havia alcançado, Sami decidiu formar seu próprio grupo.

O “Loubnanouna” (Nosso Líbano) ainda é uma agremiação incipiente, mas, segundo dizem alguns, ele luta em favor da implantação de um Estado federal no Líbano. Ora, esta idéia, que já foi evocada durante os anos de guerra civil, voltou a conquistar os favores de muitos, em certos meios cristãos.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

9 comentários:

  1. LE PRESIDENT BACHIR GEMAYEL MOURRIR MARTIR DE LIBAN

    COMMENTAIRE DU L.LUIZ CHARBEL
    CITE DU GUARUJÁ BRAZIL

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  2. LE PRESIDENT BACHIR GEMAYEL MARTIR DU LIBAN


    COMENTAIRE DU L.LUIZ CHARBEL

    GUARUJÁ BRAZIL

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  3. LE PRESIDENT BACHIR GEMAYEL MARTIR DU LIBAN




    COMMENTAIRE DU FAMILE DE EDUARDO CHARBEL DU BRESIL

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  4. LE PRESIDENT BACHIR GEMAYEL MARTIR DU LIBAN



    COMMENTAIR DU GENOVEVE GEMAYEL CHARBEL

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  5. Obrigado pelos comentários. Sou neto de libanês e me fascina a história da pequena pátria, geograficamente falando, mas transcendente em sua cultura, história e contribuição à humanidade.
    O "retalho cultural e espiritual" libanês é uno. Fascinante e místico; belo, imponente, misterioroso, digno, impenetrável e delicado, como o Cedro.
    Os Gemayel, e Bachir, são a ceifa das veias do Líbano.

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  6. bachir gemayel martir do libano

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  7. eduard charbel gemayel ,bachir gemayel morrio martir del libano

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  8. le president du liban bachir gemayel martir
    commentaire du mademoiselle marie charbel gemayel

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  9. O LIBANO E , E SEMPRE FOI UM PAIS DE CRISTAOS EM SUA MAIORIA,NAO PODEMOS PERMITIR, QUE OS MUSULMANOS TOMEM CONTA DO PAIS DE NOSSOS ANTEPASSSADOS,COMO FILHOS E NETOS DE LIBANESES,TEMOS QUE NOS MANTER UNIDOS,PARA QUE ISTO JAMAIS ACONTEÇA,LONGAVIDA LUBNAN,LONGA VIDA A MEMORIA DOS PATRIOTAS GEMAIL .

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