Atos, palavras, símbolos

Eliane Cantanhêde

A política externa brasileira chegou bem animada ao fim do governo Lula e entra igualmente bem animada no governo Dilma. E com pitadas de novidade.

Uma delas, a mais nítida, é em relação ao Irã. A dupla Lula-Amorim foi acusada de ousar além do ponto no acordo nuclear com o regime Ahmadinejad e ficar acanhada diante das agressões aos direitos humanos. A dupla Dilma-Antônio Patriota está reequilibrando a postura.

Logo na primeira entrevista coletiva e, depois, na primeira exclusiva, justamente para o "Washington Post", Dilma classificou o apedrejamento de mulheres tidas como infiéis como "práticas medievais" e declarou que o Brasil seria mais assertivo nas votações sobre direitos humanos nos foros internacionais.

Nos primeiros quinze dias de governo, ela já passou das palavras à prática, ao pedir explicações sobre a censura descabida ao escritor Paulo Coelho, um recordista de livros publicados e traduzido no mundo inteiro. O governo do Irã não gostou, claro, mas foi importante o Brasil marcar posição e parar com essa história de que pode cobrar tudo dos EUA, sem cobrar nada dos adversários do império.

Simultaneamente, o Brasil alegou solidariedade com a Argentina e impediu que um navio britânico proveniente das ilhas Malvinas (disputado historicamente pelos dois países) atracasse no porto do Rio de Janeiro. Segundo o Itamaraty, foi uma decisão "política e diplomática".

Lembre-se que a primeira viagem internacional do chanceler Patriota foi a Buenos Aires, como será também a da presidente.

No caso dos passaportes vermelhos, distribuídos a rodo nos mandatos de Lula, Patriota disse que é coisa da "gestão anterior". E, no caso da tensão Brasil-Itália por conta da não-extradição do ex-guerrilheiro Cesare Battisti, a diplomacia age nos bastidores, mas quem enfrenta os microfones são as áreas política e jurídica. Quem pariu Mateus que o embale. Quem tomou a decisão que segure a onda.

A política externa é feita de palavras, de gestos e de símbolos. Em 15 dias, já dá para saber qual ela será nos próximos quatro anos.


(*) Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Foi colunista do Jornal do Brasil e do Estado de S. Paulo, além de diretora de redação das sucursais de O Globo, Gazeta Mercantil e da própria Folha em Brasília.

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